Palavra do Reitor: "Estar diante de Jesus, mas não estar com Jesus"
20.07.2025 - 19:06:00 | 4 minutos de leitura

Meu irmão, minha irmã...
“Marta, Marta, estás ansiosa…” —
assim começa a resposta de Jesus diante da queixa de Marta sobre sua irmã
Maria. Mas Jesus não está censurando Marta por estar trabalhando, por estar
servindo. Não é uma crítica ao fazer.
Tampouco o texto quer nos dizer que devemos ser “um pouco Marta e um pouco
Maria”, como se a vida cristã fosse uma balança entre ação e contemplação. Isso
seria superficial demais.
O verbo que Jesus usa
— μεριμνᾷς (merimnás), de μεριμνάω — é o mesmo que aparece em outros
momentos do Evangelho de Lucas e nos revela algo muito mais profundo. Significa estar dividido, estar
inquieto interiormente, ter o coração
agitado e fragmentado. Não é apenas estar ocupado com tarefas; é estar absorvido, distraído e dominado por elas,
de modo que já não se percebe mais o que é essencial.
Jesus não repreende
Marta por estar na cozinha — Ele a corrige porque o coração dela está fora de lugar. Marta está diante de
Jesus, mas não está com Jesus.
Seu serviço perdeu o sentido porque foi absorvido por um ativismo ansioso. Mas
o mesmo poderia ter acontecido com Maria. Maria, mesmo sentada aos pés de
Jesus, poderia estar ali com aparência de
piedade, mas com o coração distante, frio, ou distraído. E se assim
fosse, o Senhor também teria corrigido Maria.
Portanto, o que
está em jogo não é o fazer ou o não fazer,
mas o estado do coração diante do Senhor.
Marta poderia estar na cozinha, trabalhando com alegria, em paz, cheia de
gratidão pela presença de Jesus em sua casa, e isso seria santo. Mas ela não
estava assim. Ela se perdeu em seus próprios sentimentos, perdeu o foco, não percebeu quem estava ali com ela.
As ansiedades da vida têm esse poder
destrutivo: elas nos distraem da presença
de Deus. No capítulo 8, versículo 14 de Lucas, Jesus usa o mesmo verbo
(μεριμνάω) para descrever as sementes
que caem entre os espinhos: a Palavra é
ouvida, mas é sufocada pelas preocupações, riquezas e prazeres da vida, e não
dá fruto. Em Lucas 12,22, novamente: “Não andeis ansiosos por vossa vida…” — porque a
ansiedade é uma forma de perder o coração
de Deus mesmo estando em meio às coisas de Deus.
Estar ansioso é
deixar o coração se afastar do essencial. É perder a consciência da presença de
Cristo. É deixar de viver “o agora” com Deus e começar a viver o “e se”, o “e
quando”, o “e como farei”. A ansiedade, como Jesus aponta, nos impede de perceber que Ele está conosco
— e isso é a grande tragédia.
A verdadeira
santidade começa quando não saímos da
presença do Senhor, por nada. Seja sentados em oração ou varrendo o
chão, seja na solidão do quarto ou no barulho da cidade, se estamos com o coração centrado em Jesus, tudo
se torna santo.
E há uma lição que não podemos jamais esquecer — que deve nos sustentar nas tempestades, nos altos e baixos da vida, e nos dar norte mesmo quando tudo parece escuro: “Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl 1,27).
Esta é a raiz de toda santidade: Cristo habitando em nós, e nós permanecendo n’Ele. E quem assim vive, já vive o céu nesta terra. Como dizia Santa Teresa dos Andes: “Quem não amou Deus na terra, o que vai fazer no céu?” Ou ainda, como nos ensina São Bento, cuja memória celebramos em 11 de julho: “Nihil amori Christi praeponere” — Nada antepor ao amor de Cristo.
Nada deve nos
distrair d’Ele. Nada deve nos afastar d’Ele. Nada é mais precioso que Sua
presença. Porque Cristo a nada deu mais
valor que a nós. Não tenhamos medo, não deixemos que nada roube o
nosso coração, pois mesmo que tenhamos problemas, temos com quem vencê-los — e Seu nome é Jesus.
Uma semana repleta de todas as graças e bençãos do céu!

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