Palavra do Reitor: "Abraçar o que não passa: o verdadeiro tesouro da vida"

Notícias do Santuário

03.08.2025 - 15:46:00 | 4 minutos de leitura

Palavra do Reitor:

Meus irmãos e irmãs,

Se hoje você olhasse agora o extrato da sua conta bancária, o que encontraria? Talvez cifras, reservas, dívidas, investimentos… Mas agora imagine que você pudesse trocar tudo isso por uma única coisa: trazer de volta quem você ama e perdeu. Daria certo? Claro que não!E se a morte chegasse para você ainda esta noite, como no Evangelho, teria algo a oferecer em troca da sua vida? Poderia negociar?

Essas perguntas, duras, mas necessárias, são como um espelho que a Palavra de Deus nos coloca hoje. O homem da parábola de Jesus é chamado de louco, não por ser rico, mas por confiar que seus celeiros cheios lhe garantiriam segurança e sentido. Deus, no entanto, interrompe seus planos: “Louco! Ainda nesta noite pedirão de volta a tua vida. E para quem ficará o que acumulaste?” (Lc 12,20)

O Eclesiastes já dizia: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!” (Ecl 1,2). É como correr atrás do vento. Trabalhar, acumular, gastar, conquistar… mas no final, tudo isso escapa das mãos. Nada disso pode segurar a vida. Nada disso compra a eternidade. E é aqui que entra o grande apelo da Liturgia: abraçar aquilo que não passa.

São Paulo, na Carta aos Colossenses, é firme: “Aspirai às coisas do alto, e não às coisas da terra.” (Cl 3,2) E quais são essas “coisas do alto”? É o amor esponsal ao Senhor! É a fé que nos sustenta. É a esperança que nos move. É a caridade que nos leva ao encontro do irmão e transforma nossa vida em dom.Essas são as riquezas que não acabam. Porque quando tudo passar – e vai passar –, permanecerá aquilo que plantamos com o coração voltado para Deus.

É por isso que, ao contrário do homem da parábola, o verdadeiro sábio é aquele que sabe viver o presente com os olhos na eternidade. Que ama mais do que acumula. Que serve mais do que exige. Que se doa mais do que se protege.

Quantas vezes, em nossa vida, corremos tanto atrás de estabilidade, de segurança, de conforto? Transformamos os meios em finalidade e esquecemos que o que realmente dá sentido à vida não se pode guardar num cofre ou aplicar num fundo financeiro. É invisível aos olhos, mas eterno diante de Deus.

Há dez anos conheci uma Capela que fica na cidade de Évora, em Portugal. Essa Capela é decorada com ossos e,na sua entrada, ela traz uma frase marcante que nos recorda isso com crueza e verdade: “Nós, ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos.” A morte é o grande nivelador. Mas, para o cristão, ela também é oportunidade de mudança de vida, de reflexão, de chamado urgente de Deus à conversão, para que não nos percamos no que é passageiro.

Abraçar o que não passa é aprender a viver com sabedoria. É saber que cada gesto de amor, cada perdão oferecido, cada renúncia por causa do bem, cada sacrifício silencioso e fiel... isso tudo é tesouro que ninguém poderá tirar de nós. É riqueza eterna.
Ao nos aproximarmos deste mistério tão sagrado, em que o próprio Cristo se entrega a nós na Eucaristia, supliquemos a graça de fixar os olhos nas coisas do alto. Que Ele nos ajude a desapegar do que é ilusório, a soltar os ídolos que pesam e nos impedem de caminhar livremente para Deus. E quando chegar a hora de partir, que não sejamos encontrados com celeiros cheios de vaidades, mas com o coração repleto de amor, mortos para o mundo e vivos para o Senhor.

Deus vos abençoe!


Pe. Silas de Oliveira, rcj - Reitor 

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